quinta-feira, setembro 28, 2006

Nova morada

O Ars Scientia vai mudar de casa para a WordPress. Espero que nos continuem a visitar em:
http://arsscientia.wordpress.com/ 

quarta-feira, setembro 13, 2006

M.L.K. - Manifesto Liberdade e Kultura [Parte III]

Centremo-nos, agora, nisto: as fogueiras provocam as sombras - os intermediários provocam os fenómenos. Estabeleço pois: é necessário queimar as fogueiras! Chegou o tempo em que o escritor fala ao leitor, o realizador vê o espectador, o músico ouve o fã. E o instrumento da libertação tem o nome de: internet. E a libertação chama-se: gratuidade. Do céu caiu uma estrela: ela é o sinal! Na literatura, os blogues permitiram uma inédita proximidade entre os dois lados da barricada, construindo-se tantas vezes como complemento ao próprio livro; a possibilidade da criação simples de e-zines favoreceu a divulgação de grupos menores antes sem meio de expressão. Em cinema, tivémos já este ano o vanguardista exemplo de Soderbergh com Bubbles, lançado simultaneamente nas salas, na televisão e em DVD; bem como o case study do recentíssimo Snakes On A Plane em que a produtora, sob pressão dos fãs na net, se viu obrigada a filmar novas cenas. Musicalmente, os selos, apocalipticamente, abertos abriram abertamente o futuro: a Universal passará a distribuir as suas músicas gratuitamente já pelo final do ano; as netlabels são uma realidade emergente; os Artic Monkeys são a prova de que a Rede funciona como plataforma de lançamento de novos artistas; na Suécia, domingo saberemos os resultados eleitorais do Piratpartiet. No Canadá, no ano passado, um projecto de lei que visava criminalizar os downloads foi reprovado (de resto, mesmo em Portugal só o upload é estritamente punível) - em contrapartida, parte do preço dos CD-Rs reverte a favor dos artistas e editoras discográficas. Pedro Leitão, responsável pela TestTube, profeta khalil gibran, anunciou:

"Há quem diga que o download gratuito é um roubo. Mas o download não é gratuito, visto que implica um pagamento ao ISP que fornece o acesso à Net. Deviam ser os ISP a pagar ás editoras pelos downloads, á semelhança do que rádios e discotecas já fazem com as taxas dos direitos de autor. Um dia, a música será um bem fluido, pago por uma conta mensal, como a luz ou a água."

Estes, irmãos, são os sinais dos tempos.

Mas até que ponto estamos nós, artistas, prontos a acompanhar esta mudança? O mercado musical é aquele que, a uma primeira análise, mais facilmente - também porque nele mais rapidamente a viragem para o futuro se processa, por ser a arte maior - se adaptará e salvaguardará os interesses dos seus artistas. Afamados cantores já foram prontos, há muito, a esclarecer que não se opõem ao download. Vimos já anteriormente que, verdadeiramente, quem beneficia do sistema actual de venda de CDs são as editoras, pois nem mesmo na rica América a margem de lucro para os compositores chega a atingir os 10% sobre o preço de capa. Estabelecemos já que o sustento dos músicos são as suas tours e um sistema como o proposto por Pedro Leitão ou a forma como, pela publicidade, a Universal vai continuar a lucrar, asseguram a permanência de outros rendimentos menores extras. Com o tempo, sonho!, nesse tempo de fraternidade que virá, emergirão mesmo estúdios gratuitos, construídos pelo dinheiro de várias bandas reunidas que abrirão as portas destes aos novos, dispensando-lhes material, como quem convida para ser o supporting act de uma tournée - e a música florescerá, como uma magnólia - porque branca de pureza.

No cinema, como pode um realizador actuar neste novo espaço e novo tempo (a quarta dimensão) sem intermediários? O filme é, indubitavelmente, das três artes que vimos falando, a que mais meios envolve, mesmo quando o seu orçamento é nitidamente baixo, também porque, evidentemente, é a que emprega mais pessoas. No dia em que o dinheiro se extinguir, há uma aurora boreal que anunciará a dissolução dos problemas que falamos - e Tyler Durden sorrirá. Hoje, permanece, estátua, a necessidade de alimento. Aos cineastas, como músicos em tournées, resta receber dividendos da exibição pública das metragens antecipadamente. Duas perguntas: 1) como, se os cinemas não são controlados pelos cineastas? 2) como, se a ida sociológica ao cinema está em queda? Obviamente, o sonho pressupõe o sonho. Se Coppola e Lucas fizeram a Zoetrope, se Von Trier concebeu Zentropa, se Spielberg criou a Dreamworks, eis chegada a hora de os realizadores, além das suas produtoras, formarem as suas salas, assegurando pessoalmente e directamente a distribuição dos filmes e recolhendo os lucros da exibição. E como um dia os estúdios serão dos músicos, assim virá aurora em que lusomundos serão dos cineastas. Mau grado a crise do ano passado, público continuará a afluir ao cinema, porque o grande ecrã é a essenciabilidade da sétima arte. Um 5.1. dollby surround não substitui um josé lúcio leiriense. Há sempre uma razão para ir ao cinema - mas é preciso também que fabriquemos essa razão. Experiências como o IMAX ou o Optimus Open-Air são pioneiras nesse campo nos tempos nossos, mas que falar do Napoléon de Abel Gance em 1927 ou os drive-ins doutrora? Adicionalmente, outra possibilidade, secundária, de financiamento dos artistas da área é o mecenato dos espectadores. Leiam-se, de novo, astrologicamente, os signos:

"We now live in an era where a blogger like Josh Ellis could ask his readers to pay him$500 so he could travel to Nevada and write an essay about his trip to the origins of the Manhattan project or where Daniel at PouringDown.tv could raise over $2000 from dozens of readers via Fundable.org to go and make a film a day on a week long road trip for the Seven Maps project."

Certos dirão que isto se traduziria, redundantemente, na não gratuidade dos filmes. Mas estamos perante uma falácia, porque obviamente o espectador nunca financiará todos os filmes que consumirá. Outro projectos gratuitos angariam também eles: nomeadamente a Wikipedia. Outros afirmarão que os realizadores se libertarão da escravatura da indústria só para resvalarem para a do público: o realizador, em vez de ter de convencer um estúdio, terá de convencer o seu público - o que é sempre a prova derradeira, agora tornada primeira. E o público não pode nem deve ser um problema - um filme, como veículo de uma mensagem, de uma weltanschauung, precisa de um interlocutor - cujo nome é: Público. Mesmo uma visão muito pessoal, necessariamente pouco apelativa às massas, encontrará nelas, quando elevadas cultas, suporte. E o cinema brotará como um rio - porque nasce nas montanhas, chamadas: Alturas, e desce ao mundo, regando.

Por fim, escritores que somos nós, como nos vestimos de festa para a celebração? O material mais precariamente protegido, mais propenso ao plágio, é, indiscutivelmente, o nosso. Possuímos, frutuitamente, mecanismos e organismos que asseguram os nosso direitos morais sobre as obras, conquanto as registemos. Verdadeiramente, muitos, pouco passam deste estádio. As editoras, protectoras, consentem, em matérias invisíveis como a poesia, na publicação se os lucros respeitantes ao autor revertem para elas até que os custos de publicação estejam cobertos. Tendo em conta que o lançamento de poesia em Portugal é, praticamente sempre, um investimento não recuperado, nunca poeta algum ganharia pão com a sua poesia senão em utopia. Assim, ao poeta colocam-se, francamente, poucas dúvidas, pela prática, de gratuidade da sua poesia. A publicação é perseguida pelo formato palpável de livro que permite - e é a dificuldade de extinção deste que condiciona, na literatura, o objectivo comum para Arte que aqui temos prosseguido. Se a música percorreu diversos formatos, do saudoso vinil ao impalpável mp3; se o cinema coube primeiro em película e hoje é digital, foi primeiro bobina, sofreu a metamorfose de ser VHS e acabou, mariposa, em DVD só para, insecto, se extinguir breve e das duas asas chamar-lhes, à esquerda, HD-DVD, e à direita, Blu-ray; o livro, esse, inalterável, ficou gutenberg desde o (re)nascimento. É pois complicado conceber o livro num formato alheio ao papel, livro cibernético e informático em plenitude. E isto condiciona a situação do escritor na nova distribuição da Arte: por um lado, é desconhecido qualquer meio de rendimento consistente de um escritor a tempo inteiro que não as suas obras (não há, como no cinema, salas; como na música, tours); por outro, o papel terá de ser sempre pago, inclusive por razões ecológicas. Uma reflexão pertinente aflora, contudo: raros são, excepto velhos, os só-escritores. A escrita tem por característica ser sempre uma actividade secundária longamente. Não se ouve falar de músicos, mesmo entre os menos conhecidos, que, após o lançamento do seu primeiro álbum, permaneçam no activo numa qualquer profissão de secretária. Paralelamente se comportam os cineastas, intercalando entre longas-metragens, videoclips e anúncios publicitários. A condição da escrita é, ipso facto, árdua. Excepcionando traduções, ninguém pode viver de se sentar ao computador. Mais uma vez, o escritor aparece, dentre as três artes que, sistematicamente, temos vindo a analisar, como o mais propenso a mais facilmente ceder à gratuidade, por o seu estado ser, de facto, bastante semelhante já a esse, de resto. Publicar um livro é muito mais a necessidade de uma concretização da natureza e modo e forma da escrita do que um verdadeiro lucro. É a condensação de um desejo que brota do interior do escritor, como o é do realizador ver o seu filme numa sala ou do música de uma audiência a cantar along. A primeira solução ponderada então é, como o Bubbles do cinema, o duplo lançamento da obra: simultaneamente a nível cibernético e editorial/livreiro. Isto materializaria o livro sem ofender a gratuidade que buscamos da Arte. Se o terreno cibernáutico é, nalguns formatos, mais favorável, o rígido papel permitirá a muitos a concretização mais fiel dos intentos. Uma taxação, como os canadianos nos CD-Rs, das folhas de papel (necessariamente requeridas para impressão dos textos online) poderia acalmar os objeccionistas da primeira medida. Creio, sinceramente, na possibilidade fáctica desta nova literatura, capaz até de explorar, modernisticamente (isto é, em jeito dos primeiros modernistas), as potencialidades do ciberespaço e as incluir na sua própria estrutura. E a literatura será como a semente da mostarda - "é a mais pequena de todas as sementes; mas, depois de crescer, torna-se a maior planta do horto e transforma-se numa árvore, a ponto de virem as aves do céu abrigar-se nos seus ramos."

Mais: até, amigos!, nesta luta, legalmente os juízes e os juízos nos compreendem e ajudam! Progressivamente, pela lenta dissolução dos direitos de autor, para a ribalta saltam livros, filmes, músicas! Na altura em que, beatles feitos, cantarmos "when i'm sixty-four", poderemos ver gratuitamente um filme de Kubrick, ler um romance de Vergílio Ferreira ou ouvir Nirvana. Mas nessa altura, de resto, professo firmemente a minha fé, ter-se-á cumprido o sonho do primeiro e último filósofo português, Agostinho da Silva, que anunciou, franciscanamente, o tempo da liberdade da arte.
E ser artista será, de novo, desregração.
E a Arte: acontecerá!

6.9.2006-13.9.2006

M.L.K. - Manifesto Liberdade e Kultura [Parte II]

Houve, de facto, um tempo, em que cri que a Arte era um privilégio de elites abençoadas, estranhamente iluminadas - e que, jamais o «povo» haveria de ascender a percebê-la. Que engano!, que convencimento! Apolo, quando nasce, é para todos. Talvez nisso - como em tudo - tenham visto os Gregos mais longe, ao aproximarem, na mesma pessoa, o deus do Sol e o deus da Arte. Mas, hoje, Apolo, do seu carro, olha - e não encontra a lira. Se a Arte é de todos, onde estão «os todos» para a reclamarem? Em vez disso, «os todos», como prisioneiros da caverna da alegoria, festejam com as sombras - mas, lá fora!, o Sol! O Público contenta-se com falsificações, quando os quadros de Munch foram roubados - mas O Grito e a Madonna foram recuperados!

As massas galvanizam-se com fantasmas, quando, ao lado, na tumba, os falecidos só esperam o seu olhar para ressuscitar ao terceiro dia! Olho em volta - e entristeço-me profundamente, dando vontade de reconstruir o mundo como os «sábios» da Academia de Gulliver. Entra-se numa livraria, mas onde foge a almada exclamação de Almada!:"Deve haver certamente outra maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido." Hoje, a perdição é, amigo Almada!, a tua outrora salvação! Hoje, quando a sibila me quer mostrar, Eneias, o Inferno, leva-me a uma livraria. Tanta coisa sem jeito que pulula ali e que esforço, Deus que esforço!, para encontrar algo bom que não seja, vinho do porto, velho. E quando encontro, Deus encontro!, encontro, como quem encontra um amigo, por acaso, quando sai do café mas já soubesse antes que no café estava o presidente. Oh Almada!, nem imaginas a publicidade desalmada que fazem a tanta porcaria ambulante para que a comprem! Mas são os nomes delas que discutem na rua, como quando saíram As Minas de Salomão do Eça. (não sei se percebeste a ironia do contraste). Todos sabem os nomes delas, como todos sabem o nome do presidente, mas, ai!, quem conhece o meu amigo senão eu? Houve um tempo, Almada, em que as pessoas tinham alma e tinham amigos...

Entro no carro. "Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,/Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,/Sozinho guio, guio quase devagar", ó Álvaro!, e, para saborear toda a modernidade de um só trago, ligo a telefonia. Mas Álvaro, preferia os intonarumori, os «instrumentos» de fazer barulho do teu futurismo! Isto é invariavelmente igual: baçamente distingo. Na rádio, imagina Álvaro!, passam plagiadores de músicas japonesas! E sabes o mais cómico nisto tudo? As pessoas gostam, as pessoas gostam [risos]! Já ninguém tem paciência para triunfalmente escutar os ruídos das fábricas: mas, compensatoriamente, taylorizaram a música. Agora, é como uma receita de uma papa de velha no Pantagruel. Tal como a Fanta, as canções hoje só têm 8% de música, e esta à base de concentrado! O mais compõe-se de vitais elementos: 1º a luxúria de uma mulher ("uma mulher bela que não se ama,/Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.") (ou, no caso masculino, uma metrossexualidade); 2º coreografias (a Madonna concebeu o cristo - e quando nasceu, veio crucificado); 3º computadores (sonhasses, Álvaro!, que um dia viria que a música seria sem instrumentos e sem músicos!). Depois - seguindo a receita, há o forno para o pão. Porque o pão é uma massa de farinha ensopada. É, revelação!, o forno que faz o pão, o fenómeno, o sucesso. O forno chama-se MTV e rádios. No teu tempo, Álvaro, eles lá na telefonia, quando era chegado o horário, tinham um locutor que criava ali, disco-jóquei, algo maior que ele sendo dele. Escolhia as músicas para mostrar e havia quem preferisse, pelos gostos musicais obviamente embutidos nos programas, mais um que outro. Hoje, Álvaro, os locutores chegam à hipocrisia de nem gostarem das músicas que estão a rodar. Vontadas de dinheiro, as editoras asseguram, como quem paga uma publicidade, um número fixo de audições diárias. Num tempo de cabalas, eu creio numa: aquele programa de fim de tarde, que eles chamam discos pedidos, deve também estar todo comprado e quem liga para lá são os empregados das grandes marcas discográficas, intermediárias impingidas dos cantores (nota, Álvaro, hoje já não falamos de músicos, mas de cantores!). Houve um tempo em que os músicos acreditaram no DIY. Sabes?, perdeu-se toda a liberdade. O mundo mudou tanto desde o ano da morte de Ricardo Reis!

Chego a casa. Tiro o casaco, abro o maço que poiso depois de acender um cigarro na cómoda do hall de entrada. Ligo a TV e estendo o braço e compro um comando. Nada. Um vazio. Até a casa está mais cheia, porque me tem a mim. «Produções nacionais» - nome tão alto para o tão baixo! - sucedem-se dinasticamente segundo o molde egípcio de casamentos entre irmãos. O resultado: faraós geneticamente deficientes! Há um ar mongolodita em tudo isto. Desligo a televisão e o cigarro. Monto ao cinema. Olho os cartazes. Raios de não viver em Lisboa! Aqui, o último cinema independente - chamava-se Avenida, o indigente! - fechou no mês passado. Há um semestre abriram, do outro lado do rio, mais seis salas. Deixá-las! Tiro do bolso da gabardina o bocado amuchucado de jornal do dia da página dos cinemas: três filmes de miúdos sem imaginação e quatro blockbusters de verão. E estar a acontecer o Festival de Veneza ao mesmo tempo! E a censura?, a censura! Tenho em casa um dossiê com os obituários pela MPAA. "Weitz stated that New Line Cinema feared that "perceived antireligiosity" would make the film financially unviable in the US." Deus, isto faz algum sentido? Houve um tempo - creio que houve - em que ser artista era um bando de enfants terribles. Hoje, quando vão aos Óscares, vestem-se de gravata.

Isto são as sombras. Mas há, o afirmámos, Apolo. Imputar, na alegoria da caverna, a culpa inteira e pura à fogueira, só porque ela faz as sombras, é negar que há cadeados a prender as mãos dos seus habitantes. Não há, hoje, senão nos que ainda não cresceram (e mesmo esses crescem já hoje tão depressa!), a liberdade suficiente para admitir e aceitar a Arte verdadeira. "You have to understand, most of these people are not ready to be unplugged. And many of them are so inert, so hopelessly dependant on the system, that they will fight to protect it.", ensina-nos Morpheus. Pouco há, de facto, a fazer com essas pessoas que matarão o filósofo quando ele, visto o Sol, regressar à caverna platónica. Precisamos de uma nova geração - e nisto temos a vantagem de sermos jovens.

M.L.K. - Manifesto Liberdade e Kultura [Parte I]

A.S.: a escrita deste texto foi feita em várias partes, umas longas, outras breves, em dias juntos ou separados, em horas diferentes, na diferença toda que pode comportar o espírito. O texto resulta pois como uma enorme manta de retalhos de estilos - se isso lhe traz riqueza ou o ilide, o juiz - leitor! - decide.


Folheava hoje as páginas virtuais, leitura matutina do jornal novo em que se converteu, sem baptismo, a máquina em que escrevo. Nas informações que pesquisava da adaptação cinematográfica do primeiro volume da trilogia His Dark Materials, encontrei na Wikipedia:

"In an interview published on the internet in December 2004, Weitz indicated that the film would make no direct mention of religion or of God; two of the key themes of the trilogy - a decision attacked by fans of the novels. Weitz stated that New Line Cinema feared that "perceived antireligiosity" would make the film financially unviable in the US."

Este é o Tempo em que Arte diminui.

No séc.XX nasceu matarem-se as regras. A libertação libertou-se do que libertar-se. Dadá destruiu toda a seriedade da Arte, e os os russos acabaram com as palavras na literatura (Khlebnikov) e os objectos na pintura (Kandinsky). O Romantismo, enquanto movimento espartaquista, concluiu-se enfim, porque se concretizou finalmente. Na América, houve Greenwich Village. Ah!, esses, esses foram tempos em que o tempo não contava na atemporalidade de que as obras imortais eram cheias! Homens forjaram o quebrar das correntes e ser artista era sinónimo de ser livre! Livre da sociedade, livre da própria arte. Todos eram futuristas, ordenando os incêndios de tudo o que pertencia ao passado, e a inauguração de um tempo novo com a regra nova de não existirem regras. A Arte: acontecia.

"Todo o mundo é composto de mudança".

Hoje, o mundo engravidou de mais um século. Mas, ai Darwin!, estavas errado! Mais tempo não significou mais evolução. Os sinais são demais evidentes: a Arte foi taylorizada. Garrett escreveu nas suas Viagens a receita para uma novela romântica - hoje, tudo tem as suas regras, como se todos tivéssemos saídos de uma gigantesca academia de Belas Artes, chamada cultura pop. A rádio comprime as músicas a quatro minutos, talvez por o quadrado ser para os gregos a forma perfeita. As editoras literárias, canas de bambu, bamboleiam à boleia das tendências (vide Cruzadas Literárias, onde se distingue o bom do mau fruto). O cinema prostitui-se por um PG13. Estamos a ceder a Arte às massas - e a Arte nunca foi uma questão de massas. Não que os dois temas sejam antagónicos - e virá, assim creio, o dia em que, pelo contrário, serão sinónimos - mas tal sucederá não porque a Arte se baixou, mas porque o Público se elevou. Porém, repito, a Arte nunca foi uma questão de massas - porque é um produto, essencialmente, individual.

Enquanto exposição de uma filosofia, de uma mundividência, de uma mensagem, qualque obra de arte torna-se imensamente pessoal, e, quando é verdadeiramente genial, consegue atingir a universalidade. Anna Karenina é uma obra de Tolstoi, com as ideias de Tolstoi - mas capta o fundo do ser humano e, aí, ganha o coração de cada leitor e a essência difícil da psique humana. É desta extrema duplicidade paradoxal - de ser simultaneamente a expressão e a expansão de um «eu» e a possibilidade de identificação anónima com o Homem - que Nietzsche fala num passo da sua Origem da Tragédia: "...pois este «eu» não é já o do homem vigilante, o do homem empírico e real, mas sim o «sujeito» verdadeiro e eterno que existe no fundo de todas as coisas e que o génio lírico sabe reproduzir, penetrando assim até ao íntimo cerne da realidade."

A verdadeira Arte significa, pois, algo para as pessoas. Fala-se, por exemplo, em confirmação do «paradoxo» de cima, de cinema de autor de massas, das mãos de Hitchcock, Tarantino, Kubrick ou Spielberg. A Arte é Humanidade e condição essencial, como a Filosofia ou a Ciência, da nossa realização humana. Por isso, a Arte tem Público. Eu não acredito na estupidez das pessoas: eu acredito na sua estupidificação. Se a Arte tem de se livre, não menos livre tem de ser quem se dispõe a acolher essa Arte. E, Deus!, é isso que nos falta! Espíritos livres e espíritos presos que se queiram libertar! Entre o artista e o consumidor surgiu esta figura, exôtica, estranha, condicionante: o editor/o produtor. Nunca houve tanta oferta e nunca a cultura foi tão monólita. Este é o tempo dos media - «media» porque intermediários. E, porque intermediários, eles filtram a produção artística, condicionando o sucesso ou insucesso dos projectos criativos. Vivemos o tempo da Arte fabricada: o sucesso artístico é um fenómeno independente do artista. O sucesso da generalidade dos cantores de hoje em nada se deve aos seus talentos, mas à MTV; o triunfo de filmes de acção repetidos e comédias românticas adolescentes, ao marketing; as vendas de inúmeros autores, a irem às cavalitas de um género que obtém um breakthrough. Goethe escreveu na opus Fausto:"Que a sorte sem mérito pouco vale/Um tolo nunca o entenderia;/Tivesse ele a pedra filosofal/E inda o filósofo à pedra faltaria."