segunda-feira, junho 26, 2006

Álcool, Drogas e Videojogos!

Existem momentos em que tenho vergonha da ciência.

Ou antes do que certas pessoas chamam "ciência".

A razão deste post não é uma das eventuais e quase banais críticas que o método de entretenimento que está entre nós desde 80 e qualquer coisa sofre constantemente. Isso é tão vulgar como filmes que nós achamos bons levaram um carimbo de mau dos críticos profissionais. Não, o que me indigna é um chamado estudo científico.

Com o tema vícios e videojogos.

Bem, decerto que todos estão familiarizados com esse conceito. Mais algo de que eles são criticados. Mas lá está, a televisão também vicia. O trabalho - sim, por mais inacreditável que pareça, vicia - idem. Sexo também. E claro, comportamentos menos correctos viciam. Mas no fundo, qualquer tarefa sem moderação e uma dose de temperança vicia. Até levar porrada.

Mas outro estudo deste género seria recorrente, algo que já todos ouvimos. Mas o problema não está na capacidade viciante dos videojogos, mas sim no aumento da dependência de substâncias narcóticas.

Sim, leram bem. Esse dito estudo afirma que os videojogos induzem comportamentos alcoólicos e aumentam a probabilidade de um adolescente consumir drogas. E não é um caso de jogo X e Y, esses polémicos que por vezes explodem nas prateleiras das lojas.

Qualquer videojogo. Até os Teletubbies caça-fantasmas. Qualquer videojogo pode iniciar um adolescente no caminho da droga, tão perigoso como uma bebida "carregada" numa discoteca ou uma primeira amostragem de "crack".

Certas coisas defendo, mas por favor amigos, sejam mais criativos e menos ridículos da próxima vez. Se os paizinhos alarmados têm vagar para arranjar bodes expiatórios para as quedas dos filhos, passavam melhor esse tempo levantando o rabo dos sofás e olhassem mais para os seus rebentos, se prestarem atenção ao potencial deles e não ao relato de domingo e às quintas e circos de abominações.

sexta-feira, junho 23, 2006

A arte do futebol

Eu já disse várias vezes que não gosto de futebol. Não tenho nada contra o desporto em si, contudo, não consigo entender porque razão é que uma nação inteira para durante um dia por um jogo que eles próprios classificam como "pouco importante".

Nem quero imaginar como vai ser com as finais do mundial? Uma semana antes do jogo e outra depois?

Continuando, é impossível negar o estatuto do universo futebolístico de arte. Ao mesmo nível dos jogos de circo ou das execuções públicas e corridas do hipódromo, mas arte na mesma. Pão e Circo é uma medida de arte popular.

Defendendo a análise anterior, é fácil estudar a arte com que o futebol é vendido, a decoração que a sua básica premissa acarreta. Ora as suaves bandeiras que nos impingem mil e um produtos, não são ela arte, parte da cor de um jogo de futebol? Porra, até a vernaculidade da claque e dos jogadores castigados, a mais esbelta arte do insulto? E do murro? E da invasão de campo?

E os clássicos? As maravilhas em tela e película inspiradas pelo mui nobre e exaltado acto de chutar a bola? Futebol... arte. E que ninguém se atreva a questionar. Até as figuras, esses Adónis suados que compensam de boca fechada as graças que nas cabeças não lhes incidiram.

Repito, futebol é uma arte. A cultura de uma nação.
Que se lixe o Nobel da Literatura. Eu quero um Nobel do Futebol.

segunda-feira, junho 05, 2006

O Caminho da Serpente - Prólogo: Eu e a Cerca

− Ouse viver!

O chamamento ecoou, usando um universo de matéria para atingir as suas vítimas, num desafinado e distorcido comprimento de onda. Furioso, Avier voltou-se para a caserna. Era mais uma vez o outro sargento e o seu detestável programa de rádio.

− Ouse viver! Ouse ganhar! Ouse chaammmaaarrr − continuava o terrível jingle. Como poderiam aguentar aquilo? Companhia, era a desculpa do costume. Balelas, praguejava Avier. Se queriam ouvir uma voz humana, ligassem para as informações… Um rádio?

− Baixa-me essa porcaria! − gritou, em iguais porções de fúria e autoridade. − Se não o fizeres, garanto-te que te mando para o outro lado!

Falhou em receber resposta, a ensurdecedora cacofonia do aparelho dissolvendo toda a razão. A dez quilómetros de tudo e a maior distância de nada, não adiantava enervar--se. Afastou-se ainda mais da caserna, metralhadora a tiracolo e pacote de cigarros na mão.

Sobravam três.

Rendido, pegou no isqueiro e acendeu-o. Levou-o aos lábios, recebendo o fel como ambrosia, alegria destilada de um mundo que os tinha esquecido. Mas ele era necessário. Todos os soldados acabavam ali, era o último serviço pela pátria. Antes da reserva…

Amostra grátis do oblívio que os esperava.

Guardar a Cerca.

− Boooooommm diaaaa, bem-vindos à Hora Mágica − guinchava o locutor, pelo tom um homem de meia-idade. Não haveria nenhum programa com mulheres de vozes sensuais? Avançou, procurando distância. Saboreou o cigarro enquanto observava as tristes nuvens que se aproximavam.

Nunca fazia bom tempo na região. O pessoal na cidade costumava falar de mau feng shui, de linhas invisíveis dilaceradas por uma draconiana muralha de arame e aço. Mas Avier sabia melhor… a Cerca era necessária para manter o mundo saudável. Era um sacrifício válido. Se o que estivesse do lado de lá fosse assim tão importante, de certeza que ninguém se iria esquecer…

Na sua mente simples e habituada a obedecer, a verdade era simples.

As pessoas nunca se esquecem das coisas importantes.

− E o nosso primeiro concorrente de hoje é Joseph. Diga-me Joseph, está pronto para responder à pergunta de hoje…

Avier parou de andar. Atirou o cigarro ao chão, verdadeiramente nos limites. Aquilo já era tortura, não havia algum lugar para onde pudesse escapar? Pensou nos trinta quilómetros da Cerca. Nalgum lado não ouviria o estúpido rádio. Animado, acelerou o passo.

− Para ganhar um fantástico desfibrilador de ovos… − ouviu-se num guinchar electrónico. Desfibrilador de ovos? Ouvira bem? − Joseph: que imperador tornou Santo o Império Romano?

Santo, santo, santo. Quantas vezes Avier ouvira essa palavra?

Quantas vezes o seu significado lhe tinha escapado?

Fez menção de pegar num segundo cigarro, mas conteve-se. Aquilo não podia ser bom para ele. Só lhe faltava mais um mês, mais um mês e ia deixar de precisar de fumar veneno…

− Bismark? − novo guincho do rádio. Tinha que se afastar mais…

Ao contornar duas árvores, observou algo estranho no linear padrão de losangos de arame. Um enorme rasgão dividia a Cerca, quebrando a sua perfeita integridade, violando o círculo mágico que a impedia de contaminar o mundo que amava…

Ligou o rádio. Estática.

Continuava a ouvir o mesmo programa. Como?

Pegou na arma, encontrando na sua frieza um invulgar conforto. Aproximou-se rapidamente.

Distinguiu três figuras, correndo entre a vegetação. Traziam roupas pesadas e mochilas bem abastecidas. Mas que loucura os levava a procurarem a morte? Num misto de piedade e devoção ao seu papel de guardião, Avier disparou.

Era melhor aquela morte, fácil, do que o lento consumo que os aguardava no interior da Cerca.

Foi então que sentiu, um estranho ricochete. O peito doía-lhe, como se ele próprio tivesse sido baleado. Contudo, ao abrir a camisa constatou que não havia uma única ferida de entrada. Como era isso possível?

Novo ardor, desta vez tão forte que o estatelou no chão. Não conseguia mexer as pernas, apenas esbracejava impotente enquanto fitava a Cerca. Algures na relva, intermitente e espectral, uma serpente fugia. Tinha agora a certeza.

Era uma serpente.

E tinha-o morto.

− Lamento, mas penso que a resposta está errada…