sexta-feira, abril 28, 2006

Um olhar de silício, uma apatia social...

O corpo humano é limitado, mas mesmo assim, surpreendentemente resistente. Tomem por exemplo os nossos ossos. Aparentemente, mero material de sustentação, parece lógico assumir que qualquer emulador metálico desempenharia o seu papel na perfeição. Rejeição aparte, as coisas não funcionam assim. O osso mais simples é uma maravilha da arquitectura celular, capaz de suportar tensões que desgastariam muitos materiais na questão de meros anos.

Mas não é de ossos que quero falar. Apesar de extremamente engenhosa, a natureza está longe de ser perfeita. Os nossos sentidos, lanternas para a realidade, são limitados e falham. Até pouco tempo atrás, a perda da visão ou de outros sentidos prejudicava imensamente os indivíduos afectados, cortando-os daquilo que assumimos como "normalidade".

Os meios sempre existiram, mas muitas vezes não são aplicadas. Recordam-se de quando começaram a ser aplicados computadores em Braille em Portugal? Eu sim.
Foi duas semanas atrás.

E não me delongo em queixas, basta andarem pelas ruas e um pouco de role-play para imaginarem as dificuldades que o nosso planeamento urbano e social impoe sobre aqueles com deficiências sensoriais e/ou motoras.

Pelos vistos, está mais que provado que tenho talento para me dispersar. Porque comecei este artigo? Para vos falar dos chips neuromorficos. Estes pequenos engenhos de silício estão a ser testados para substituir neurónios sensoriais e motores danificados. A tecnologia já alcançou grandes sucessos na área da correção visual, curando cegueira. Outras áreas estão abertas, embora por agora os gráficos destes "computadores visuais" estejam muito aquém da visão natural.

Mais uma vez, dispomos dos meios.
Mas infelizmente não é possível inventar maior civismo e exigir resultados...

segunda-feira, abril 24, 2006

IndieLisboa 2006

Está a decorrer em Lisboa, até ao dia 30 de Abril, o Festival Internacional de Cinema Independente (IndieLisboa). A organização organizadora do evento, a Zero em Comportamento, apresentou um programa que envolve cerca de 282 filmes independentes, incluindo 14 estreias mundiais.

Entre as produções independentes internacionais, figura uma forte fatia nacional, seis longas-metragens e quarenta e duas curtas.

Em Lisboa, além de decorrer nos habituais King e Fórum Lisboa, o festival vai estender-se à sala de cinema Londres. Com o intuito de disseminar o gosto pelo cinema independente, vão ser lançadas iniciativas semelhantes em Guimarães, Famalicão, Moita, Nazaré e Aveiro.

Células estaminais, células de discórdia...

Células estaminais são células não-especializadas e com grande capacidade de divisão, podendo tornar-se células musculares, nervosas, ósseas... A sua investigação sempre foi vista com grande esperança pela engenharia de tecidos. Contudo, é uma área que levanta muita polémica.

Tirando os benefícios óbvios de conseguir condicionar células estaminais a tornarem-se qualquer célula em falta no organismo - como por exemplo, os limitados neurónios -, as células estaminais apenas abundam em seres humanos em formação. Ora, o principal meio actual de obtenção de células estaminais é a partir de nados mortos... o que levanta muita poeira, pelo que nalguns países, investigação em células estaminais chega a ser ilegal.

Até recentemente, a alternativa mais comum era o congelamento de cordões embrionários para estudo das células estaminais neles contidas. Curiosamente, essa ideia partiu de uma mente Portuguesa - o que prova mais uma vez que não somos menos que os outros.

Contudo, cientistas americanos da Califórnia reclamam ter conseguido produzir células estaminais a partir de gónadas masculinas. Neste momento, outros laboratórios estão a tentar reproduzir a experiência, no âmbito de assegurar a sua viabilidade. Se for verdade, toda a polémica pode assentar e a engenharia de tecidos vai ter um novo brinquedo.

Por vezes basta uma ideia.

quinta-feira, abril 20, 2006

Prémio ISPA 2006

Aproxima-se o encerramento das candidaturas do prémio ISPA deste ano, uma iniciativa da mesma entidade, com os objectivos de "estimular a inovação, o método, a criatividade e o rigor científico na investigação na área da Psicologia e afins", premiando jovens cientistas portugueses.

O prémio consiste no montante de 2.500€ e visa premiar publicações já apresentadas ou pendentes para publicação em revistas internacionais. As candidaturas devem ser apresentadas até 5 de Maio.

Mais informações, consultem o regulamento em:
www.ispa.pt

quarta-feira, abril 19, 2006

O fenómeno "Blog"

A última sondagem feita na comunidade, descortinou um número bastante redondo: quase um milhão de utilizadores no ciberespaço nacional. Bem, esse número tem de ter algum significado.

O que afinal sustenta os blogues?

Em primeiro lugar a facilidade: qualquer pessoa com acesso à internet e algum tempo livro pode construir um. Apesar da acessibilidade, isso não garante visitas...

A questão é mais demorada, focada em conteúdos e numa estranha evolução. Os blogues estão a tornar-se no jornalismo da era digital, segundo certos analistas. Existem blogues que são autênticas "cartas postais", ou até folhas noticiarias. A informação é partilhada velozmente e por vezes com um rigor e profissionalismo que tem vindo a desaparecer dos media tradicionais, mais apegados à manipulação emotiva do que à própria circulação de informação. Basta recordar que foram "bloggers" os primeiros a passar as notícias dos tsunamis asiáticos, no ano passado.

Claro, que aí estamos a falar de blogues cuidados, já com um nicho e com uma equipa dedicada e profissional. Como tudo, os blogues são uma poderosa máquina de (des)informação. Muitas vezes os blogues não são plataformas de comunicação e divulgação, mas sim "pequenos e públicos cantinhos privados", reservatório de pensamentos ou valores. Podem ser minas culturais ou de "rabiscos emotivos".

Mais uma vez, diversidade causada pela facilidade de criação.

Apesar desta visão mais radiante, eu não sou cego. Sei bem que existe o lado "negro" dos blogues - ou lados doutras cores, como o "rosa" -. Infelizmente, esse milhão de visitante deve ser engrossado pelos blogues mais visitados, o que pode parecer óbvio e ser estaticamente esperado. Infelizmente, quando alguém faz uma pesquisa do top de blogues normalmente dois resultados predominam...

Pornografia e séries "infanto-juvenis" (Morangos com Açúcar, por exemplo).

Dá que pensar. Como tudo, os blogues são mais uma ferramenta.
Só pode ser julgada pelo uso que lhe é atribuído.

segunda-feira, abril 10, 2006

"Células de Hidrogénio? Só se for lá fora..."

Em primeiro vou fazer uma confissão que vai arruinar a já ténue reputação do Ars Scientia. Eu não leio a Bola, o Record ou outro jornal desportivo, e sinceramente, não lhes acho piada. Para culminar, para além de me tentar actualizar o máximo que possível sobre os eventos nacionais e internacionais... compro jornais diários (não desportivos). É uma pena não seguir os títulos mais vendidos, mas espero que esta comunidade me perdoe...

Num tom mais sério, tenho acompanhado com tristeza a falta de energia que o povo português deposita sobre si mesmo, a baixa confiança. Isso manifesta-se por todos os aspectos, desde culturais a linguísticos. Poderia falar nesses, mas por agora vou parar nos motivos económicos.

Para aqueles que dizem que o Interior está a morrer e que ninguém faz nada por ele, que Portugal perdeu o comboio industrial e que só vai haver corrente com um possível choque tecnológico, vou falar de uma história de sucesso. Vou falar da SRE. Soluções Racionais de Energia.

Fundada em 2002, possui sede em Torres Vedras e diversos centros de investigação pelo país, principalmente em parques industriais do interior. Apesar disso, é pequena, mas começa a dominar o mercado do hidrogénio. Apesar de - ainda - não trabalhar em combustível de hidrogénio (por acaso tenho acompanhado um doutoramento muito interessante sobre cristais condutores de hidrogénio...), eles têm já baterias de diferentes potências e tamanhos, para coisas tão variadas como automóveis ou computadores portáteis. Os produtos são bastante interessantes mas os preços são proibitivos: em média, cada Watt custa 10€... e isto é o preço de fábrica.

Dêem-lhes mais uma década.

Isto é apenas um exemplo, mas outros realçam um historial de sucesso de indústrias Portuguesas reconhecidas tanto em meio nacional como internacional. É verdade que Portugal não pode competir em indústria em série... mas em indústria de qualidade e de alta tecnologia, temos já o nosso nicho.

Nunca desistam do vosso país. E pensem, cada vez que vocês melhoram... ele melhora.

sexta-feira, abril 07, 2006

Terapia Génica

Ah... terapia génica. A polémica das discussões em que trouxe a tua temática ao de cima... os sonhos de colegas e professores, de gente visionária e mentalmente flexível. A desinformação e pré-conceitualizações de gente "especializada"; academicamente treinada para o ensino de biologia secundária e de parcos saberes bioquímicos, mas que mesmo assim se consideram sumidades da matéria...

Quem te chama ficção, quem te chama ganha-pão.

Tristes cenários aparte, os factos suportam este lado da barricada. Porque todos os dias, avançam novas ideias sobre terapia génica no mundo... e uma grande fatia é desenvolvida em laboratórios nacionais. Sim, deixem o "espírito de coitadinho" tão aplaudido pelos últimos governos de lado:

Portugal está entre os melhores e mais inovadores nesta área.

Bem, mas em que consiste a terapia génica? Basicamente, consiste na utilização de material genético para tratar doenças genéticas hereditárias ou adquiridas. Por exemplo, cancro, doenças vasculares, doenças neurodegenerativas, infecções virais e num caso mais limitado, reduzir e retardar a série de maleitas conhecida como "envelhecimento".

Para realizar esse propósito são utilizadas diferentes abordagens. Utilizam-se "genes terapêuticos" para processar certas proteínas, marcação de genes, "silenciosamento"e reparação de genes defeituosos. A metodologia de terapia escolhida é condicionada, obviamente, pelo problema alvo.

Contudo, o nosso organismo possui um grande arsenal imunológico. Como é que o ADN, uma molécula tão sensível, consegue ultrapassar as defesas naturais do ser humano.

Tirando mecânicas especializadas - como tecnologia "stealth", onde membranas de proteínas hidrofílicas cobrem-se de água para "ocultar-se" dos glóbulos brancos e outras defesas -, existem duas principais classes de "transportadores" para ultrapassar esse problema:

- Uso de vectores virais, que consistem em vírus geneticamente alterados - recombinados. Na teoria, são óptimos transportadores de ADN, já que passaram os últimos milénios a evoluírem para ultrapassar as já referidas defesas do sistema imunitário. Estes dividem-se, entre outros, em adenovírus e retrovírus.

- Uso de vectores não virais, alcunhados de "vírus sintéticos". Utilizando compostos lipídicos, como lisossomas catiónicos e licoplexos, "escoltam" o ADN até ao local onde esse vai realizar terapia. É um ponto de partida promissor, uma vez que já são usados em fármacos convencionais há anos. A sua relativa pouca eficiência é compensada por uma maior segurança, quando comparados com os vectores virais.

Apesar dos sucessos laboratoriais e clínicos, também existe um historial de fracassos. Por exemplo, elevada dosagem de adenovírus resultou numa resposta inflamatória tão agravada que causou uma morte. Contudo, sucessos como o tratamento SCID com retrovírus animam os esforços. Em França, onze "bebés-bolha" - ou seja, que sofriam de uma doença genética que se manifesta pela total ausência de sistema imunitário -, foram curados com essa terapia génica. Infelizmente, três deles chegaram a desenvolver mais tarde leucemia, dano colateral do uso de retrovírus. Por isso, hoje em dia estamos mais focados para os vectores não virais.

Por fim, lanço um aviso às mentes mais fechadas que consideram isto impossível. Já existem 22 protocolos de terapia génica em Fase III, ou seja, prestes a entrar em comercialização. Entre esses e os seus primos de gerações futuras, podem emergir a cura para Alzheimer ou retardantes para o HIV...

Em breve, autênticos "banhos génicos", terapias génicas fáceis e regulares serão aplicados para males que até agora temos carregado submissamente. Os dois métodos irão trazer novidades à medicina e melhorar exponencialmente a nossa qualidade de vida. Há que ter esperança, porque quantos mais problemas há, mais soluções podem ser encontradas para os resolver.

Desespero é o nosso único verdadeiro inimigo.



Especial agradecimentos ao prof. Sérgio Simões da BluePharm e à sua equipa de investigação, sem qual teria abandonado a esperança neste tema.

quinta-feira, abril 06, 2006

Prémio União Latina

Este ano, o vencedor do prémio literário União Latina foi atribuído ao multifacetado artista Frankétienne, de origem haitiana. Entre os candidatos finalistas, encontravam-se também Mia Couto, Fernando Vallejo, Maria Velho da Costa, Gabriela Adamesteanu, Luigi Meneghello, Enrique Vila-Matas e Jaume Cabré.

Este ano, o prémio foi dividido em dois blocos monetários iguais, totalizando 12.000€. A primeira metade é dada ao escritor, sendo a outra utilizada para financiar a tradução e publicação de uma obra de ficção noutra língua latina.

Um prémio importante, dedicado a divulgar escritores que proveram possuírem "veia internacional". Já agora relembro, que os Prémios União Latina premeiam não só escritores, mas também tradutores - heróis anónimos do sector literário - e artistas plásticos.

quarta-feira, abril 05, 2006

Lendo uma herança ilegível II

No último artigo delonguei-me com o óbvio e com questões idealizadas e sobre alguns pontos de vistas, quase fantasiosas. E ainda por cima, visões já conhecidas e partilhadas. Aparentemente, vou ter de voltar a falar do ADN.

Apesar de nos vermos como o pináculo da evolução, o genoma humano é recessivo e retrógado, pouco funcional. Dos milhares e milhares de bases, apenas cerca de 5% destas codificam proteínas. Para os leigos, apenas essa minúscula parcela define efectivamente quem nós somos.

Então para que servem os outros 95%? Sem perder ainda mais tempo, é pouco mais do que uma "arrecadação genética", que tal como os objectos nos nossos sótão, não tem uma função aparente. Mesmo assim, processos de identificação genética e testes de paternidade utilizam esse ADN não funcional; e mesmo no processo de leitura - transcrição -, ele é responsável por evitar mutações e assegurar que não ocorrem erros.

Mas como as velharias do sótão, este ADN não codificante é precioso. Um legado, a chave da vida. Nele está retratada toda a evolução da vida na terra, tão deturpada que se tornou ilegível, mas tangível. Pequenas parcelas de bases que podem pré-datar os primeiros organismos a emergir do caldo primordial. Pode parecer demasiado poético e rebuscado afirmar que cada ser vivo é uma cronologia da vida na terra, mas no fundo não é mais difícil de acreditar do que o facto de que somos todos constituídos pelos mesmos átomos e iões...

A natureza não apaga nem procura novas telas. No seu imperfeito engenho, ela escreve por cima. Esses rascunhos sobrepostos carregamos em nós, alterados por milénios de evoluções e mutações. Poderia ser inspirador, uma mensagem escrita no nosso genoma, uma mensagem que estamos sempre a descartar e a esquecermo-nos, mesmo quando inúmeros projectos voltam a caminhar na mesma direcção...

Mais um elo que nós liga uns aos outros... e ao nosso lugar no cosmos.

Ilegível herança, mas um monumento ao nível do Vale dos Reis ou Stonehenge.

segunda-feira, abril 03, 2006

Lendo uma herança ilegível I

A assunção do ácido dexosirribonucleico como pilar sustentador de vida não é original ou estranha ao modo de vida moderno, antes pelo contrário. Desde que foi descoberto e modelado, foi crescendo em popularidade, sendo absorvido na cultural mais banal e acabando glorificado nas últimas décadas. Por vezes de uma maneira bastante rebuscada e exagerada, como uma chave para o futuro de cada homem e mulher.

Toda a gente conhece esta visão do ADN, este "código da vida". Tão ordinária se tornou a sua estrutura de hélice dupla, tão grande o seu impacto que deixou de codificar proteínas para se tornar motivo para levar gente à barra do tribunal, como o provam os mediáticos processos onde filhos processam os pais por herdarem destes um código genético "inconveniente". Apesar de bizarros, estes acontecimentos mostram bem a tendência do ser humano para saltar de um extremo para o outro...

Sim, porque ainda nos anos 20 do século passado, o behaviorismo de Watson dominava a psicologia educacional da época. Ou seja, qualquer pessoa poderia desbloquear um certo potencial - desde que a educação seja adequada. Hoje em dia, vejo com tristeza a divulgação da crença de que tudo o que uma pessoa pode ser está já impresso nos seus genes...

Pode parecer um cenário de ficção científica, mas pode não estar longe o dia em que o genótipo influencie todo o tipo de discriminações, não de todo diferentes daquelas que o fenótipo causou ao longo da história humana. Por exemplo, prisões "preventivas" de pessoas com um "gene associado como criminoso"; decisões de emprego tendo em conta em igual nível genótipo e Curriculum Vitae... Um estranho fatalismo.

Um ponto pouco diferente na prática da doutrina de Watson, distinguido na teoria por estar no lado oposto do espectro. Ambos errados, ambos extremos. Tal como um bom ou mau código genético pode ser aproveitado ou contornado, a educação tem os seus limites. O segredo, mais uma vez, está no equilíbrio.

Não é mentira que o ADN é um pilar da vida.
Apenas não é o único.