domingo, agosto 13, 2006

Um herói tem mil faces… mas só uma história.

Eventualmente, todos regressamos às bases.

Cada simples e única, cada complexa ou abstracta experiência tem de ter algumas credenciais. Ninguém vai para um laboratório sem saber o que vai fazer, sem um protocolo. Apesar deste argumento, não encontrarão pessoa que defenda tão firmamente o papel de criatividade e imaginação no processo de descoberta.

Só que para abrir uma porta, é preciso saber onde está o puxador.

Qualquer processo criativo começa com um desabrochar, com as suas equações ou integrais de séries. Cada autor tem as suas hipóteses, as suas teses… e cada autor procura evidências, suporte para elas. Quando não são usadas para justificar plágio, na literatura estas evidências têm um nome.

Influências.

Porque nada existe no vazio, nada é solto ou inconsistente. Não. Comportamento editorial, comportamento histórico, comportamento criativo… todo ele é comportamento humano. Ou seja, o comportamento de chimpanzés que gostam de contar histórias.

Reconciliar-me com elas é uma das coisas que mais gosto de fazer quando começo um trabalho novo.

Ora, uma das minhas grandes “evidências” é o trabalho de Joseph Campbell intitulado de The Hero With a Thousand Faces. Um livro comparativo, um estudo de padrões entre a natureza dos protagonistas, da história humana.

As conclusões são simples, cada herói tem um caminho, que Campbell divide em quatro fases. Uma sacra conjunção que começa com a Partida, com o abandonar dos ambientes conhecidos, recolhendo Ajudantes e Objectivos. Por fim atinge o Limiar da Aventura, atravessando-o nalgum confronto climático: seja ele dragão, mítica viagem ou crucificação.

Feito esse marco, entra na Iniciação: o herói começa a ter consciência das suas fraquezas e forças. Provas e provações seguem-se, monstros ou enigmas, rios de problemas que exigem dele a energia de um fértil salmão. Neste passo, o herói partilha muito dos Ajudantes e Inimigos, usando-os como escada para o outro limiar…

O Eixo do Mundo, o Axis Mundi de Campbell. O momento em que o herói tem plena consciência de si e do seu papel no universo da história. Esta compreensão surge de diversas formas. Imortal elixir, ascensão aos céus, humana transcendência, um sagrado casamento, consumação de sonhos… é o pináculo do herói, o ponto-chave que o diferencia dos Ajudantes e dos Inimigos, dos comuns e caídos mortais.

Ou seja, nesse círculo, acabou o Mistério. O herói não pode subir mais… Tendo chegado ao Trono do Mundo, agora há que descer. Então começa a rota da tragédia, que de trágico poder se oferece.

É a altura de Regressar, a separação e partida dos Ajudantes, talvez eles agora os seus próprios heróis. As transformações daquilo que viu acompanham o herói, mudando-o. A magia do seu ser alterou-se e começam a notar-se claras diferenças com a criatura relativamente inocente e ignorante que saiu de casa. Por fim, alguma manifestação surge deste novo herói. Ou um Ulisses retornado que com o filho extermina os pretendentes dos seus direitos, um Sebastião reconhecido, um Teseu coroado ou um Cristo ressuscitado, algo volta a cruzar o Limiar da Aventura, um último acto heróico para terminar a história.

Chega então o fechar do círculo, quando o herói se prepara para o declínio. Alguns têm mortes esquecidas, outros fecham-se em legados, construção de cidades e somando os sonhos dos mortais aos céus. Outros caem, tornando-se meras sombras dos seus antigos eus, corrompidos e esquecidos. Reino e Morte, isto espera ao herói no fim da história. A desova do salmão.

Reino e Morte e a esperança de sequela.


É fácil compreender o paralelismo. O heroísmo da questão fundido num só ponto concêntrico, que transforma cada e única história num monómito de Joyce. Mas que propósito podemos tirar daqui?

Muitos.

É preciso de ver a visão humana que Campbell dá de herói. Ele fecha o seu trabalho divagando sobre os papéis do herói, as forças e formas sobre qual a sua natureza se manifesta. As suas transformações. O herói como Guerreiro. Como Amante. Como Imperador e Tirano. Como Redentor do Mundo. Como Santo e como Encoberto.

O herói como expoente humano.

Para terminar esta conclusão, recordo de uma comparação que uma vez fiz, sobre o Caminho do Parvo, familiar para aqueles que conhecem o baralho de Tarot. As semelhanças entre ele e esta… redundante via do herói. E tal como uma pessoa me disse na altura, isso é pouco mais do que o desenvolvimento de um ser humano, o que as cartas contam não é diferente das palavras de Jung, Freud e Erickson. E ela tinha toda a razão do lado dela.


Tudo evidências, tudo parte de um padrão. A mensagem?

No fundo… estes chimpanzés contam histórias sobre o que mais ambicionam.

Sobre o que querem atingir.

E não é as copas das árvores.

A libertação, a compreensão de uma dimensão maior onde estão inseridos.

Crescimento.

Humano crescimento.




6 Comments:

Blogger Id.alizador said...

Não cheguei a ler esse livro, mas achei muito interessante, procurarei por ele. Achei muito bom seu post e posso dizer que cada um tem um herói dentro de si, cada um tem suas faces; mas, o que os torna diferentes é sua história, por vezes menores que os grandes heróis, talvez por isso esquecidos na vida.
Abraços.

segunda-feira, agosto 14, 2006  
Blogger Enlightened by darkness said...

Muito bom artigo, se bem que acabe por ser um resumo daquilo que consultaste.

segunda-feira, agosto 21, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Sim, mas também o maior objectivo dele é divulgação.

Também houve alguma aglutinação de ideias e interpetações e pontos, outra ideia que começou a surgir mas que não desenvolvi no fim porque já estava a ficar grande demais.

segunda-feira, agosto 21, 2006  
Blogger silent_dark said...

Sinceramente, fantástico. Comecei a ler por ser um novo post, mas rapidamente lia pelo post que era. Para além do teu estilo subtilmente irónico, da pespectiva pessoal que metes sempre nas coisas (mesmo quando, como neste caso, apresentas coisas alheias), o livro e tese apresentadas são, de facto, verificáveis e sistematizadoras - um salutar rgresso às origens, como tu dizias logo no princípio. Cinco estrelas.

quarta-feira, setembro 06, 2006  
Anonymous White Wolf said...

Artigo interessante de facto. Uma introdução que bem esvoaçou antes de entrar no tema e que me deixou inicialmente confuso, mas que vendo em retrospectiva é bastante cativante. Bom resumo de informação.

quinta-feira, setembro 07, 2006  
Blogger Lord of Erewhon said...

O vosso blog é, de facto, merecedor de toda a atenção!
Malta nova que pensa é cada vez mais raro.

P. S. Agora o que tá na moda no Porto são uns patetas que são vampiros de Ísis! JAJAJAJAJA!!!

Continuem!
Abraços!

quarta-feira, setembro 27, 2006  

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