segunda-feira, junho 05, 2006

O Caminho da Serpente - Prólogo: Eu e a Cerca

− Ouse viver!

O chamamento ecoou, usando um universo de matéria para atingir as suas vítimas, num desafinado e distorcido comprimento de onda. Furioso, Avier voltou-se para a caserna. Era mais uma vez o outro sargento e o seu detestável programa de rádio.

− Ouse viver! Ouse ganhar! Ouse chaammmaaarrr − continuava o terrível jingle. Como poderiam aguentar aquilo? Companhia, era a desculpa do costume. Balelas, praguejava Avier. Se queriam ouvir uma voz humana, ligassem para as informações… Um rádio?

− Baixa-me essa porcaria! − gritou, em iguais porções de fúria e autoridade. − Se não o fizeres, garanto-te que te mando para o outro lado!

Falhou em receber resposta, a ensurdecedora cacofonia do aparelho dissolvendo toda a razão. A dez quilómetros de tudo e a maior distância de nada, não adiantava enervar--se. Afastou-se ainda mais da caserna, metralhadora a tiracolo e pacote de cigarros na mão.

Sobravam três.

Rendido, pegou no isqueiro e acendeu-o. Levou-o aos lábios, recebendo o fel como ambrosia, alegria destilada de um mundo que os tinha esquecido. Mas ele era necessário. Todos os soldados acabavam ali, era o último serviço pela pátria. Antes da reserva…

Amostra grátis do oblívio que os esperava.

Guardar a Cerca.

− Boooooommm diaaaa, bem-vindos à Hora Mágica − guinchava o locutor, pelo tom um homem de meia-idade. Não haveria nenhum programa com mulheres de vozes sensuais? Avançou, procurando distância. Saboreou o cigarro enquanto observava as tristes nuvens que se aproximavam.

Nunca fazia bom tempo na região. O pessoal na cidade costumava falar de mau feng shui, de linhas invisíveis dilaceradas por uma draconiana muralha de arame e aço. Mas Avier sabia melhor… a Cerca era necessária para manter o mundo saudável. Era um sacrifício válido. Se o que estivesse do lado de lá fosse assim tão importante, de certeza que ninguém se iria esquecer…

Na sua mente simples e habituada a obedecer, a verdade era simples.

As pessoas nunca se esquecem das coisas importantes.

− E o nosso primeiro concorrente de hoje é Joseph. Diga-me Joseph, está pronto para responder à pergunta de hoje…

Avier parou de andar. Atirou o cigarro ao chão, verdadeiramente nos limites. Aquilo já era tortura, não havia algum lugar para onde pudesse escapar? Pensou nos trinta quilómetros da Cerca. Nalgum lado não ouviria o estúpido rádio. Animado, acelerou o passo.

− Para ganhar um fantástico desfibrilador de ovos… − ouviu-se num guinchar electrónico. Desfibrilador de ovos? Ouvira bem? − Joseph: que imperador tornou Santo o Império Romano?

Santo, santo, santo. Quantas vezes Avier ouvira essa palavra?

Quantas vezes o seu significado lhe tinha escapado?

Fez menção de pegar num segundo cigarro, mas conteve-se. Aquilo não podia ser bom para ele. Só lhe faltava mais um mês, mais um mês e ia deixar de precisar de fumar veneno…

− Bismark? − novo guincho do rádio. Tinha que se afastar mais…

Ao contornar duas árvores, observou algo estranho no linear padrão de losangos de arame. Um enorme rasgão dividia a Cerca, quebrando a sua perfeita integridade, violando o círculo mágico que a impedia de contaminar o mundo que amava…

Ligou o rádio. Estática.

Continuava a ouvir o mesmo programa. Como?

Pegou na arma, encontrando na sua frieza um invulgar conforto. Aproximou-se rapidamente.

Distinguiu três figuras, correndo entre a vegetação. Traziam roupas pesadas e mochilas bem abastecidas. Mas que loucura os levava a procurarem a morte? Num misto de piedade e devoção ao seu papel de guardião, Avier disparou.

Era melhor aquela morte, fácil, do que o lento consumo que os aguardava no interior da Cerca.

Foi então que sentiu, um estranho ricochete. O peito doía-lhe, como se ele próprio tivesse sido baleado. Contudo, ao abrir a camisa constatou que não havia uma única ferida de entrada. Como era isso possível?

Novo ardor, desta vez tão forte que o estatelou no chão. Não conseguia mexer as pernas, apenas esbracejava impotente enquanto fitava a Cerca. Algures na relva, intermitente e espectral, uma serpente fugia. Tinha agora a certeza.

Era uma serpente.

E tinha-o morto.

− Lamento, mas penso que a resposta está errada…

7 Comments:

Blogger Enlightened by darkness said...

prologo muito bom, como já disse, o que eu não sei é o que ele faz aqui no blog...

segunda-feira, junho 05, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Pá, nem eu sei. Mas temos andado tão fraquinhos em termos de actualizações...

segunda-feira, junho 05, 2006  
Anonymous Snipper Lundur said...

Concordo que este não é o sítio para isto. Tá bem que é arte, mas julgava o blog mais... Global, percebes?

(Não perde nenhum do muito valor que já acumulou, mas... acho que fica mal)

quarta-feira, junho 07, 2006  
Anonymous White Wolf said...

Gostei bastante do que li,na verdade. Se isto é o prólogo, e se o resto da história se mantiver dentro das mesmas linhas,é capaz de sair algo bem interesante de se ler.Espero para ver...

(Só um pormenor.Optei por deixar aqui o meu comentário ,mesmo não sendo o local mais adequado, pois o forum do circulo de escritores (apesar de estar registado) é raro eu aceder a ele)

quinta-feira, junho 15, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Se bem que no CE poderás verificar se o resto da história se mantém nas mesmas linhas: vai lá espreitar, hum? ;)

sexta-feira, junho 16, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Sim, és bem vindo a postar no CE.

sexta-feira, junho 23, 2006  
Blogger Paulo Sempre said...

"Blogs"
Bem..aqui nos blogs podemos contemplar as "estrelas" que a solidão que a infância incendiada nos deixou. Aqui..sempre temos "asas" para enganar alguma coisa..e ter "asas" não é o mesmo de ter nada.....
abraço
Paulo

sexta-feira, junho 23, 2006  

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