sexta-feira, abril 28, 2006

Um olhar de silício, uma apatia social...

O corpo humano é limitado, mas mesmo assim, surpreendentemente resistente. Tomem por exemplo os nossos ossos. Aparentemente, mero material de sustentação, parece lógico assumir que qualquer emulador metálico desempenharia o seu papel na perfeição. Rejeição aparte, as coisas não funcionam assim. O osso mais simples é uma maravilha da arquitectura celular, capaz de suportar tensões que desgastariam muitos materiais na questão de meros anos.

Mas não é de ossos que quero falar. Apesar de extremamente engenhosa, a natureza está longe de ser perfeita. Os nossos sentidos, lanternas para a realidade, são limitados e falham. Até pouco tempo atrás, a perda da visão ou de outros sentidos prejudicava imensamente os indivíduos afectados, cortando-os daquilo que assumimos como "normalidade".

Os meios sempre existiram, mas muitas vezes não são aplicadas. Recordam-se de quando começaram a ser aplicados computadores em Braille em Portugal? Eu sim.
Foi duas semanas atrás.

E não me delongo em queixas, basta andarem pelas ruas e um pouco de role-play para imaginarem as dificuldades que o nosso planeamento urbano e social impoe sobre aqueles com deficiências sensoriais e/ou motoras.

Pelos vistos, está mais que provado que tenho talento para me dispersar. Porque comecei este artigo? Para vos falar dos chips neuromorficos. Estes pequenos engenhos de silício estão a ser testados para substituir neurónios sensoriais e motores danificados. A tecnologia já alcançou grandes sucessos na área da correção visual, curando cegueira. Outras áreas estão abertas, embora por agora os gráficos destes "computadores visuais" estejam muito aquém da visão natural.

Mais uma vez, dispomos dos meios.
Mas infelizmente não é possível inventar maior civismo e exigir resultados...

2 Comments:

Blogger silent_dark said...

Grande texto. O mesmo desvelar da modernidade científica sob o outro véu do humanismo. Apelativo e informador, o artigo. Se os chips de sílica não eram para mim total novidade nesta área, a notícia de que só há duas semanas (enquanto escrevo estas palavras, isto parece demasiado louco para ser real)passámos a ter em Portugal teclados Braille. Este pormenor (pormenor! como chamar detalhe a algo de tão vital importância para aqueles que são afectados pela medida?) fez-me lembrar de um documentário que vi recentemente de um restaurante em Zurique (http://www.blindekuh.ch/ - o site está em alemão, lamento)em que a maioria dos trabalhadores são cegos (foi no documentário que pela primeira vez vi os tais pcs para invisuais - bendito o homem que os inventou!)e gerem um restaurante onde os "visuais" entram para tomar uma refeição completamente às escuras e experimentarem o que é ser cego. Diga-se que todas as refeições são preparadas por cegos, mas todos confessam como são saborosas e bem confeccionadas. Enfim, realmente outra experi~encia bem sucvedidad de integração... E, assim, tal como tu, desviei-me do tema...

quinta-feira, abril 27, 2006  
Anonymous Snipper Lundur said...

Mais nada posso dizer depois do que nos mostraste com esse post. O facto é que o fosso entre a iniciativa dos poucos que pensam e criam e a iniciativa dos que poderiam, se quisessem, disponibilizar, é profundo demais. Precisamos de mais formação, humanismo. Porque um mundo melhor, esse já existe sem nós darmos conta. Pessoas melhores é que nem tanto.

segunda-feira, maio 15, 2006  

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