sexta-feira, abril 07, 2006

Terapia Génica

Ah... terapia génica. A polémica das discussões em que trouxe a tua temática ao de cima... os sonhos de colegas e professores, de gente visionária e mentalmente flexível. A desinformação e pré-conceitualizações de gente "especializada"; academicamente treinada para o ensino de biologia secundária e de parcos saberes bioquímicos, mas que mesmo assim se consideram sumidades da matéria...

Quem te chama ficção, quem te chama ganha-pão.

Tristes cenários aparte, os factos suportam este lado da barricada. Porque todos os dias, avançam novas ideias sobre terapia génica no mundo... e uma grande fatia é desenvolvida em laboratórios nacionais. Sim, deixem o "espírito de coitadinho" tão aplaudido pelos últimos governos de lado:

Portugal está entre os melhores e mais inovadores nesta área.

Bem, mas em que consiste a terapia génica? Basicamente, consiste na utilização de material genético para tratar doenças genéticas hereditárias ou adquiridas. Por exemplo, cancro, doenças vasculares, doenças neurodegenerativas, infecções virais e num caso mais limitado, reduzir e retardar a série de maleitas conhecida como "envelhecimento".

Para realizar esse propósito são utilizadas diferentes abordagens. Utilizam-se "genes terapêuticos" para processar certas proteínas, marcação de genes, "silenciosamento"e reparação de genes defeituosos. A metodologia de terapia escolhida é condicionada, obviamente, pelo problema alvo.

Contudo, o nosso organismo possui um grande arsenal imunológico. Como é que o ADN, uma molécula tão sensível, consegue ultrapassar as defesas naturais do ser humano.

Tirando mecânicas especializadas - como tecnologia "stealth", onde membranas de proteínas hidrofílicas cobrem-se de água para "ocultar-se" dos glóbulos brancos e outras defesas -, existem duas principais classes de "transportadores" para ultrapassar esse problema:

- Uso de vectores virais, que consistem em vírus geneticamente alterados - recombinados. Na teoria, são óptimos transportadores de ADN, já que passaram os últimos milénios a evoluírem para ultrapassar as já referidas defesas do sistema imunitário. Estes dividem-se, entre outros, em adenovírus e retrovírus.

- Uso de vectores não virais, alcunhados de "vírus sintéticos". Utilizando compostos lipídicos, como lisossomas catiónicos e licoplexos, "escoltam" o ADN até ao local onde esse vai realizar terapia. É um ponto de partida promissor, uma vez que já são usados em fármacos convencionais há anos. A sua relativa pouca eficiência é compensada por uma maior segurança, quando comparados com os vectores virais.

Apesar dos sucessos laboratoriais e clínicos, também existe um historial de fracassos. Por exemplo, elevada dosagem de adenovírus resultou numa resposta inflamatória tão agravada que causou uma morte. Contudo, sucessos como o tratamento SCID com retrovírus animam os esforços. Em França, onze "bebés-bolha" - ou seja, que sofriam de uma doença genética que se manifesta pela total ausência de sistema imunitário -, foram curados com essa terapia génica. Infelizmente, três deles chegaram a desenvolver mais tarde leucemia, dano colateral do uso de retrovírus. Por isso, hoje em dia estamos mais focados para os vectores não virais.

Por fim, lanço um aviso às mentes mais fechadas que consideram isto impossível. Já existem 22 protocolos de terapia génica em Fase III, ou seja, prestes a entrar em comercialização. Entre esses e os seus primos de gerações futuras, podem emergir a cura para Alzheimer ou retardantes para o HIV...

Em breve, autênticos "banhos génicos", terapias génicas fáceis e regulares serão aplicados para males que até agora temos carregado submissamente. Os dois métodos irão trazer novidades à medicina e melhorar exponencialmente a nossa qualidade de vida. Há que ter esperança, porque quantos mais problemas há, mais soluções podem ser encontradas para os resolver.

Desespero é o nosso único verdadeiro inimigo.



Especial agradecimentos ao prof. Sérgio Simões da BluePharm e à sua equipa de investigação, sem qual teria abandonado a esperança neste tema.

1 Comments:

Blogger Ludovico M. ALves said...

Hum... sei que é um artigo bastante focado e com termos estranhos. Qualquer esclarecimento, peçam aqui que eu vou tentar responder às vossas dúvidas.

terça-feira, abril 18, 2006  

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