quarta-feira, abril 05, 2006

Lendo uma herança ilegível II

No último artigo delonguei-me com o óbvio e com questões idealizadas e sobre alguns pontos de vistas, quase fantasiosas. E ainda por cima, visões já conhecidas e partilhadas. Aparentemente, vou ter de voltar a falar do ADN.

Apesar de nos vermos como o pináculo da evolução, o genoma humano é recessivo e retrógado, pouco funcional. Dos milhares e milhares de bases, apenas cerca de 5% destas codificam proteínas. Para os leigos, apenas essa minúscula parcela define efectivamente quem nós somos.

Então para que servem os outros 95%? Sem perder ainda mais tempo, é pouco mais do que uma "arrecadação genética", que tal como os objectos nos nossos sótão, não tem uma função aparente. Mesmo assim, processos de identificação genética e testes de paternidade utilizam esse ADN não funcional; e mesmo no processo de leitura - transcrição -, ele é responsável por evitar mutações e assegurar que não ocorrem erros.

Mas como as velharias do sótão, este ADN não codificante é precioso. Um legado, a chave da vida. Nele está retratada toda a evolução da vida na terra, tão deturpada que se tornou ilegível, mas tangível. Pequenas parcelas de bases que podem pré-datar os primeiros organismos a emergir do caldo primordial. Pode parecer demasiado poético e rebuscado afirmar que cada ser vivo é uma cronologia da vida na terra, mas no fundo não é mais difícil de acreditar do que o facto de que somos todos constituídos pelos mesmos átomos e iões...

A natureza não apaga nem procura novas telas. No seu imperfeito engenho, ela escreve por cima. Esses rascunhos sobrepostos carregamos em nós, alterados por milénios de evoluções e mutações. Poderia ser inspirador, uma mensagem escrita no nosso genoma, uma mensagem que estamos sempre a descartar e a esquecermo-nos, mesmo quando inúmeros projectos voltam a caminhar na mesma direcção...

Mais um elo que nós liga uns aos outros... e ao nosso lugar no cosmos.

Ilegível herança, mas um monumento ao nível do Vale dos Reis ou Stonehenge.

2 Comments:

Blogger silent_dark said...

"No seu imperfeito engenho" - esta expressão é um diamante num mundo em que, no mainstream dos media, continuamente nos apregoam a perfeição inalianável da máquina natural do mundo, não obstante todas as evoluções e descobertas científicas (desde a própria teoria da evolução [que natureza esta para se governar por acasos! ninguém lhe chamaria perfeita!] até à quântica [com toda a incerteza que lhe é inerente]).
Deixando agora reflexões epistemológicas à parte, o artigo - como expectável - está ao nível do anterior, bem legível (ao contrário do ilegível herança!) e informador. Desconhecia que era tão minoritária a parte do ADN que directamente nos define, apesar de saber das várias desilusões que a revelação do ADN trouxe àqueles que nele esperavam a derradeira prova da nossa superioridade. E quanto a sermos, literalmente, uma cronologia da história da vida no nosso planeta, recorda-me,ainda que noutra dimensão, aquela frase que diz que nós somos pó de estrelas, como se a matéria do cosmos fosse - como é - uma só e mesma e nós dela partilhássemos.
Só posso, pois, concordar contigo quando dizes "A natureza não apaga nem procura novas telas" - tudo é a mesma tela.

quarta-feira, abril 05, 2006  
Anonymous Snipper Lundur said...

mesmo para mim, que conhecia estas características do codigo genético, ler esta visão sobre ele é algo poético. Aplausos a um grande post!

quinta-feira, abril 06, 2006  

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