segunda-feira, abril 03, 2006

Lendo uma herança ilegível I

A assunção do ácido dexosirribonucleico como pilar sustentador de vida não é original ou estranha ao modo de vida moderno, antes pelo contrário. Desde que foi descoberto e modelado, foi crescendo em popularidade, sendo absorvido na cultural mais banal e acabando glorificado nas últimas décadas. Por vezes de uma maneira bastante rebuscada e exagerada, como uma chave para o futuro de cada homem e mulher.

Toda a gente conhece esta visão do ADN, este "código da vida". Tão ordinária se tornou a sua estrutura de hélice dupla, tão grande o seu impacto que deixou de codificar proteínas para se tornar motivo para levar gente à barra do tribunal, como o provam os mediáticos processos onde filhos processam os pais por herdarem destes um código genético "inconveniente". Apesar de bizarros, estes acontecimentos mostram bem a tendência do ser humano para saltar de um extremo para o outro...

Sim, porque ainda nos anos 20 do século passado, o behaviorismo de Watson dominava a psicologia educacional da época. Ou seja, qualquer pessoa poderia desbloquear um certo potencial - desde que a educação seja adequada. Hoje em dia, vejo com tristeza a divulgação da crença de que tudo o que uma pessoa pode ser está já impresso nos seus genes...

Pode parecer um cenário de ficção científica, mas pode não estar longe o dia em que o genótipo influencie todo o tipo de discriminações, não de todo diferentes daquelas que o fenótipo causou ao longo da história humana. Por exemplo, prisões "preventivas" de pessoas com um "gene associado como criminoso"; decisões de emprego tendo em conta em igual nível genótipo e Curriculum Vitae... Um estranho fatalismo.

Um ponto pouco diferente na prática da doutrina de Watson, distinguido na teoria por estar no lado oposto do espectro. Ambos errados, ambos extremos. Tal como um bom ou mau código genético pode ser aproveitado ou contornado, a educação tem os seus limites. O segredo, mais uma vez, está no equilíbrio.

Não é mentira que o ADN é um pilar da vida.
Apenas não é o único.

7 Comments:

Blogger silent_dark said...

Começo por confessar a minha suma ignorância. Não só conhecia apenas o "behaviourismo" de nome (desconhecendo a doutrina), como nunca fiz qualquer género de investigação profunda sobre o ADN.
Parece-me certo que ambas as doutrinas são extremadas. Não consigo acreditar que tudo o que sou estva predeterminado num código genético. Por outro lado, a educação é importante, mas já o triângulo determinista de Taine a punha apenas como um dos vértices (sendo um dos outros, como sabem, a hereditariedade, que podíamos aqui associar aos genes). Todo o meio social é de extrema importância. Contudo, de não menos reduzido valor parece-me ser a própria vontade do sujeito, como catalisador do que ele memso é. Se nós não desempenhamos papel algum na construção do edifício de nós mesmos, e todo ele se resume a forças externas (como são as tr~es acima descritas), então nós não somos, "somos sidos" (perdoem-me esta violação gramatical de criar uma passiva do verbo ser).
Reconheço um justo valor ao ADN, mas concedo que valorizo mais a educação. Ou, ficcionalmente, dois seres humanos com o mesmo ADN, com educações diferentes, não darão seres humanos diferentes? Talvez porque a educação é a parte que é passível de ser manipulada pelos homens (fora as utopias científicas de manipulação do genoma) eu lhe dê maior importância.
Por fim, quanto à possibilidade de uma discriminação baseada no genoma, isso seria quase regressarmos a um eugenismo "light" - mas penso que é uma perspectiva tão repugnante para a maioria das pessoas que tão cedo não teremos esse universo - os livros de sci-fi repetidamente nos têm avisado contra ele.

segunda-feira, abril 03, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Sim, estou a ver que consegui transmitir uma boa ideia dos extremos sem aprofundar em didáctica e genética. Gostei muito das tuas palavras, da tua análise directa e incisiva. Eugenia light, sem dúvida, mas existem eufemismos como "contenção de recursos humanos". Se o teu genoma dá-te quatro anos de vida e outro colega teu a uma candidatura de emprego terá pelo menos vinte anos efectivos, e o empregador terá que gastar dinheiro e tempo em formação, investirá em 4 ou 20 anos? Cruel, não é?

segunda-feira, abril 03, 2006  
Blogger Enlightened by darkness said...

Estou como o silent, acho que a influência sociológica consegue ser tão ou mais vital que a biológica. Quanto ao mais, bom artigo, que aborda algumas polémicas do pseudo-eugenismo.

segunda-feira, abril 03, 2006  
Anonymous umbrae said...

Felizmente ainda estamos longe de sabermos quantos anos de vida o nosso ADN nos dita.

As empresas de certeza que fariam selecção pelo ADN. Já hoje em dia fazem, com testes médicos e psicológicos.

quarta-feira, abril 05, 2006  
Anonymous 17th Angel said...

A mim parece-me que a preponderância do ADN é, de facto, vital. E se tivesse de qualificar qual das influências seria maior na vida de uma pessoa teria de atribuir o papel principal ao ADN e um papel menor ao meio ambiente.
Porque, no fundo, ninguém consegue ultrapassar limitações impostas pelo seu código genético.
Talvez ainda estejamos longe de conseguir ler no nosso ADN grande parte do nosso percurso de vida, talvez isso seja bom.
Mas vejo com bons olhos a vinda de um dia em que o Homem poderá manipular o código genético em seu proveito.

quinta-feira, abril 06, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Basta saber quem usa o ADN a seu proveito... o Homem ou o homem.

terça-feira, abril 18, 2006  
Blogger silent_dark said...

"mas pode não estar longe o dia em que o genótipo influencie todo o tipo de discriminações," - não me pude lembrar deste post quando, há uma semana, li um artigo no "Público" sobre a influência na cultura japonesa dos tipos sanguíneos. Lamento ter perdido o jornal, para não poder reproduzir aqui a reportagem, mas, basicamente, esta é uma prática, ao que parece, bem comum no Japão e que só nos últimos anos se tem tentado combater: empresários preferem pessoas com sangue do tipo A, por estas se considerarem mais empreendedoras e capazes de trabalhar mais em prol do grupo do que dos seus interesses pessoais. Radicalmente oposto é o tipo B, com grande desejo de liberdade e ciente da sua importância enquanto indivíduo. A pergunta "Qual o teu tipo sanguíneo?" é, pelos vistos, muito recorrente nas apresentações no país do Sol Nascente. E eram mesmo entrevistadas algumas pessoas que, por serem de tipo B, sofriam discriminações. Incrível como este eugenismo já é praticado - bem pior que os meios que o umbrae referiu anteriormente.

sexta-feira, abril 21, 2006  

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