quinta-feira, março 30, 2006

O Rosto da Ciência


Não são invulgares, estas imagens. Não, não é particularmente difícil reconhecê-las, ou pelo menos adivinhar a ocupação nelas representada. Rostos sérios, pensativos, rodeados ou envergando aparatos da mais louca limpeza ou bela complexidade. Uma mão erguida, segurando em contra luz um daqueles atraentes receptáculos de vidro, como nomes bizarramente adequados e que não deixam de atrair a curiosidade humana.

E o que faz o representado? O que faz ele, nesse quadro conscientemente inconsistente? Ele Olha.

Não, olhar é fraco adjectivo para a força que o observador é condicionado ao gesto simbólico do erguer do "cálice". Fraco também é o mero estudar, analisar, descortinar, focar, processar... Na imagem, aqueles olhos penetram a realidade, como se entre aquele pedaço de vidro e a luz repousassem todos os segredos do universo.

Esta é a imagem que a sociedade, que a nossa cultura mantém do cientista. Uma imagem tão intuitiva, tão enraizada que o facto não consegue derrubar, decerto já conquistou um lugar no subconsciente humano como a imagem mais associada aos investigadores científicos. A sua antiguidade e variedade é discutível, mas basta examinar os contextos associados e vemos que todo o género de cientistas é representado na mesma posição. Nerds de bata branca e fechados dias seguidos nos seus laboratórios, alquimistas presos em iluminaturas e quadros, físicos e químicos devotados, carismáticos e empreendedores cientistas que até ficam bem de Armani...

A eles todos, vemos assim.
De olhos profundos, separados da luz por vidros e segredos com que a humanidade sonha.

Mas vamos voltar um pouco atrás. Donde surgiu afinal esta imagem? Porque razão vemos assim os nossos cientistas? Se fosse uma emulação de trabalho laboratorial factual, a origem seria óbvia. Contudo, qualquer pessoa com um mínimo de formação em áreas científicas reconhece imediatamente um erro na vulgar imagem. Não só a posição a partir do qual o cientista representado observa a amostra é invulgar como é errada, susceptível a vibrações, movimentos e luzes que afectam a percepção do sensível olho humano e consequentemente, a exactidão e precisão de toda uma experiência.

Dentro de todos nós a pergunta repete-se.Donde veio afinal esta imagem? Porque está tão fortemente gravada?

Sendo impossível postular uma origem como certa. Especulando um pouco, gosto de ver essa imagem com um carinho romântico. Não é um cientista que está ali representado, mas sim algo maior. Toda a humanidade, perdida em busca de conhecimento.

Curiosidade, aliada a severidade e desejo puro... destilado pelo saber.

Apenas mais um espelho da raça humana.


6 Comments:

Blogger Enlightened by darkness said...

Um dos muitos e variados espelhos e máscaras da humanidade. Neste caso, o homem de ciência, o verdadeiro, enverga a máscara de Morfeu, do sonho.

sexta-feira, março 31, 2006  
Anonymous umbrae said...

Achei o artigo bastante bom.

A célebre imagme do cientista que mistura, que tem nas suas mãos o líquido que observa em contra luz.

Será uma metáfora subtil dos nosso consciente que nos remete apra o homem que segura a complexidade do mundo e o observa à luz da razão.

Uma reflexão que me levou a mim mesmo a reflectir.

Muito bem Luduvico.

Ah! Parabéns pelo recente blog, espero que tenha sucesso.

sexta-feira, março 31, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Fico contente pelas tuas palavras de aprovação, pois mais uma vez, recordo que os blogistas não são nada sem a comunidade de leitores e participantes que se formam centrados nos blogs.

Espero que continuemos a agradar-vos.

segunda-feira, abril 03, 2006  
Anonymous Mário Lopes said...

Engraçado de facto como o ser humano tem sempre a tendênçia para criar estereótipos, neste caso daqueles que procuram a verdade usando a ciênçia...

Bem,se a intenção do artigo era deixar-nos pensativos e reflectirmos, então os meus parabéns pois conseguiste (e não foi pouco).

segunda-feira, abril 03, 2006  
Anonymous Snipper Lundur said...

Na esperança que o comentário nao se volte a perder no infinito, aí vai:

E não será que até o próprio cientista se vê a si mesmo como as pessoas lá fora o fazem? Será que, ainda que sabendo que o frasco cuja realidade é penetrada pelo seu olhar não passa de mais um qualquer pedaço de conhecimento trivial quando comparado com a imensidão que é o universo, o cientista não sentirá também que contempla os segredos com que a humanidade sonha?
Apesar de tudo, o cientista é como uma criança. O bom cientista (pelos meus padrões) é movido pela curiosidade, e quando olha para aquele frasco... Só a imaginação pode limitar o seu conteúdo!


Força nisso, estou a gostar do que já li!

quarta-feira, abril 05, 2006  
Blogger Ludovico M. ALves said...

Desde já desculpa pelos problemas técnicos em relação aos comentários.

Tens razão Snipper. No fundo, o cientista é o reflexo do sonhador, e como todos os sonhadores, é uma criança curiosa.

quarta-feira, abril 05, 2006  

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